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escrito por The Earth 7lk

Começa aqui a entrevista com nosso querido professor Alberto Frederico Beuttenmüller, que tem nos apoiado e muito em nosso projeto. Nós, do 2012 – Dois Mil e Doze agradecemos de antemão por essa oportunidade. É uma honra. Espero que gostem. Dividiremos a entrevista em três partes, sendo que a primeira (sem mais delongas) começa agora.

Alberto Frederico

01 – Muitas pessoas sabem da história do grande mestre Beuttenmüller, de seus esforços e de suas conquistas. Fale-nos um pouco mais sobre a pessoa de Alberto Frederico.

Nasci em São Paulo, mas passei a minha infância no Rio de Janeiro, na Vila Isabel, por isso sei de cor todos os sambas de Noel Rosa. Estudei no Colégio São José, dos irmãos maristas, até meu pai ser transferido para Juiz de Fora, Minas, onde estudei no Grambery. No ano seguinte, estava em Belo Horizonte, estudando no Colégio Loyola (sou fundador). Depois de tantas viagens, meu pai veio para São Paulo, e passei a estudar no Colégio São Luís, dos padres jesuítas. Sempre gostei de matemática, por isso fui estudar engenharia e física Aí me enrosquei com a filosófica, e fui estudar na USP, como ouvinte. Naquele tempo podia, sem vestibular. Gosto de estudar e ler. Tenho duas bibliotecas, uma na minha casa, onde mora minha ex-mulher, com filhos; outra, onde moro em Interlagos, perto da represa, no meio de árvores e pássaros, que fazem muito bem à minha velhice. Quando percebi que não dava para engenheiro, fui estudar jornalismo. Sempre gostei de literatura, principalmente poesia (sou poeta da geração 60, com diversos livros traduzidos) e de escrever. Acabei jornalista. Um dia o JB (Jornal do Brasil), onde eu trabalhava precisou de um crítico de arte e me perguntou se eu não podia fazer crítica. Eu tinha estudado estética, na filosofia, e por dever profissional tornei-me crítico de arte (sou da AICA: associação internacional de críticos de arte). Tenho a impressão que a vida vai te levando por caminhos nem sempre programados. Foi o que sucedeu comigo. Poderia ter-me tornado um jogador de futebol, joguei no São Paulo, como amador, eles queriam que eu me tornasse profissional, eu não quis. Quando estudei em São Carlos, cantava nas boates, e fazia um dinheirinho. Gostavam da minha voz, mas tinha outros planos que, na verdade, eu não sabia bem qual era (risos). Lembro-me do meu professor de filosofia definir filo/sofos = amante da sabedoria. Era o que sempre quis ser na vida. Tenho três filhos – Gustavo, Leopoldo e Eric, que já estão trabalhando.

02 – A maioria das pessoas sentem uma força atrativa prévia por alguma profissão, antes de escolhê-la definitivamente. Qual foi a sua grande atração pelo ramo do jornalismo, da arte e da literatura?

O jornalismo levou-me à crítica de arte, como já disse; a literatura levou-me a ser poeta e prosador. Para simplificar, gosto tanto de ciência quanto de humanidades. Sempre gostei de Arte, mas a entendi melhor após estudar estética. Arte é a maior manifestação da humanidade, como não amá-la? Hoje, faço tudo isso ao mesmo tempo: leio, estudo, escrevo e faço crítica de arte, além de dar aulas de História da Arte em museus e galerias. Eu queria ser engenheiro, mas quando li o poema homônimo de Cabral de Melo Neto, entendi que eu gostava mesmo era do rigor, da disciplina da poesia, que é uma forma de matemática com muitas incógnitas e nenhuma solução (risos).

03 – Do primeiro emprego a gente nunca esquece. Qual foi a sua primeira experiência como um profissional?

Foi em A Gazeta. Estudava jornalismo na Casper Líbero e fui convidado a trabalhar como revisor, depois passei a redator da página cultural e terminei como redator das primeiras e últimas páginas. Mais tarde fiz o mesmo em O estado de São Paulo até ir para o JB ser repórter especial, no qual fiz esporte, automobilismo e acabei na área cultural.

04 – Todos temos “hobbies”, temos algo que gostamos de fazer em momentos de folga. O que a pessoa de Alberto Frederico faz nas horas vagas?

Eu leio.demais, de romances a poemas de bons escritores até filosofia e história. Mas vejo televisão para não ficar de fora das discussões caseiras. Não sei se tenho horas vagas. Na minha idade o tempo é exíguo, tenho de aproveita-lo ao máximo. Não posso desperdiçar.
Gosto de esportes também e procuro acompanhar futebol, tênis, vôlei, golfe e atletismo.

05 – Vamos conhecer mais sobre os gostos pessoais de Alberto Frederico. Diante de tantas civilizações, histórias, mitos, lendas, acontecimentos, vivências e pesquisas, gostaríamos de saber se você tem alguma preferência ao estudar determinado assunto. Se a resposta for sim, queremos uma justificativa. Se a resposta for não, explique o motivo dessa homogeneidade.

Acho que os assuntos me escolhem antes de mim. Eu vou vivendo, e os assuntos caem à minha frente, sem que me dê conta. Tudo que estudo é para saber sobre o grande mistério da vida. Às vezes, é a história que me ensina, às vezes é a ciência, outras vezes é a natureza, com sua sabedoria. Gosto de matemática. Isso me ajudou a entender muitas civilizações antigas, que tinham na matemática seu ponto principal: sumérios, caldeus, maias, astecas, incas, e por aí vai. Quando encaro um assunto, eu me aprofundo, não fico satisfeito com o superficial. Quero sempre saber mais. Comecei a estudar os maias em 1970, os maias me levaram aos toltecas, olmecas etc.

06 – Quando nos deparamos com os vestígios de uma civilização, passamos muitas vezes a ver o mundo com outros olhos, com uma nova perspectiva. Em meio a tantos atrativos e descobertas, qual foi à civilização que mais lhe chamou a atenção? Por quê?

A primeira civilização que me chamou a atenção foi a grega. Estudei grego clássico para traduzir poemas de Homero. No meu colégio São Luís, Grego era opcional, mas latim era obrigatório. Aprendi muito, ao estudar grego e latim. Depois estudei a civilização romana. Ambas – a grega e a romana – são as duas civilizações básicas da cultura ocidental. Depois, que a gente tem a base, o resto vem por curiosidade. Os egípcios, por exemplo, com sua cultura milenar, seus rituais, seus métodos matemáticos e científicos para erigir pirâmides enormes, o processo de mumificação etc. Os rivais dos egípcios – os hititas – que venceram os egípcios em guerras, nas quais usaram lâminas nas rodas de suas bigas. E chegamos à Mesoamérica, região que foi conquistada pelos espanhóis, graças às lendas. A civilização que mais me chamou a atenção foi a maia, exatamente porque viviam na floresta e sabiam de tudo sobre os astros, aplicando uma matemática de fácil compreensão.

07 – Ao seu modo de pensar, existe alguma chance do ser humano conciliar a sua vida com a vida do planeta Terra? Existe alguma forma de se viver nesse planeta sem agredí-lo? O que podemos fazer quanto a isso?

Conscientizar o mundo todo não é fácil. Há muita miséria neste planeta, nem todos têm escola, saúde, educação. Só a política poderá resolver este problema, já há gente interessada em fazer o planeta mais habitável, mas é preciso que as grandes potências, como os EUA, conscientizarem-se primeiro e dar o exemplo para outros países. Infelizmente, o que vemos é justamente o contrário. Os EUA não querem assinar o Tratado de Kyoto. Devíamos pegar o exemplo dos indígenas que vivem em comunhão com a natureza. Creio que devíamos ensinar ecologia nas escolas. Se, desde a infância, a criança aprender a respeitar a natureza, quando ela crescer não poluirá. E dará o exemplo aos próprios pais, caso eles não respeitem o meio-ambiente. Só a educação resolverá este problema. Se o presidente Bush tivesse recebido na escola ensinamentos de como respeitar a natureza, ele teria assinado qualquer protocolo em defesa da Natureza. Entretanto, os EUA não estudam nem sequer a história dos outros países, por isso desconhecem a história, a geografia, só conhecem o seu próprio país, daí o egocentrismo deles.

08 – Vemos por todos os lados inúmeras catástrofes acontecendo em um curto espaço de tempo. Na visão pessoal de Alberto Frederico, ele acredita ser algo natural, que já estava escrito, ou ser algo que estamos realmente acelerando e fazendo acontecer?

As civilizações antigas nos deixaram sabedorias em forma de profecias ou vaticínios. Estas profecias são resultado de estudos de ciclos de vidas passadas e são naturais, pois nenhuma dessas civilizações antigas poderia supor que a humanidade fosse tentar destruir a própria casa, que é a Terra. Creio que todos os ciclos deixados pelos maias, astecas, olmecas são aconteceres naturais. O mundo já passou pelo que estamos passando, por isso os maias fizeram a Conta Longa, um ciclo de mudanças que já está sucedendo – mudança dos pólos, tempestades solares etc. As pessoas estão olhando para 2012, quando finda a Conta Longa, mas elas esquecem que são acontecimentos que sucedem durante o ciclo todo até o final. Os maias não iam deixar um ciclo, se não fosse algo de grande importância para a posteridade. Por outro lado, o ser humano com sua tecnologia poluidora está ajudando a destruir o meio-ambiente e aumentar ainda mais o impacto dessas mudanças atuais e futuras.

09 – O que mais te chamou atenção e te despertou para o estudo das civilizações ao se encontrar no México, fazendo a cobertura da Copa do Mundo de 1970?

Quando estive no México, sabia mais dos astecas, justamente pela invasão dos espanhóis, comandados por Cortez. Como freqüento livrarias, descobri os maias numa delas. Li que os astecas usavam os calendários que os maias aperfeiçoaram provavelmente dos olmecas, mas nenhum mexicano diz isso. Eles fazem propaganda só do calendário asteca. Comecei a ler sobre os maias e vi que era uma civilização tão grande quanto a egípcia ou suméria. Os sumérios descobriram o zero tal e qual os maias (no século III d.C.), enquanto a Europa só soube do zero no século XII, através dos árabes, quando estes conquistaram a península ibérica. Quando obtinha uma folga, visitava uma cidade próxima. Estes fatos também me deram vontade de escrever sobre os maias, pois os mexicanos deles quase nada falam, a não ser que a gente toque no assunto. Os maias são os gregos da América, pena que seu códices foram queimados, a mando de Frei Diego de Landa, bispo do Yucatan. Este bispo depois se arrependeu e escreveu um livro (eu tenho) “Relaciones de las Cosas de Yucatan”, tenho uma síntese, porque esse verdadeiro relatório é chato. A minha síntese leva o nome de Los Mayas de Yucatan, que eu recomendo, pela editora Fondo de Cultura Econômica, cuja livraria existe em São Paulo.

Gostou da entrevista? Tem alguma pergunta para o professor? Deixe um comentário!

Acompanhe a segunda parte da entrevista aqui mesmo no 2012 – Dois Mil e Doze.

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3 Comentários para 'Entrevista com Alberto Frederico Beuttenmüller – Parte 1':
  1. tuane disse:

    olha achei super interesante essa entrevista!!!!!!

    agusaram minha curiosidade!!!!!

    a parete da intrevista que mais me interesei foi na parte dos maias!!!!

    foi um prazer ler essa materia com tanto conteudo!!!!!!!

    pois me intereso sobre povos antigos!!!!!
    bom ate+^^

  2. Marcel disse:

    Quanto a Pergunta 07. Espero que essa ” política ” não seja a mesma que alimenta o egocentrismo nos EUA. Pois êles também sofrem com a crimalidade, doenças, preconceito e etc.. Inclusive todas as civilizações que chegaram ao fato do conhecimento do Zero. A política que alimenta nossas bocas é a mesma que também nos tornam egocêntricos. Não dominamos nossas forças que são virtudes saudáveis como a justiça, o perdão, a verdade, a humildade, que são fruto do amor entre outras tantas. Muito menos as forças Naturais físicas ou biológicas, que sejam. Com a globalização, somos a última civilização detentora do conhecimento do Zero. Não somos melhores ou piores que os Maias ou os Egípcios. O zero sempre existiu, assim como outras coisas que não conhecemos. Temos que nos conscientizar de que não estamos sozinhos e não somos os únicos seres vivos. Há um universo todo em torno de nós e o mais incrível é que não estamos no centro. A educação é um aliado forte por ser saudável, pois através dela obtemos o Respeito que nos tornam tolerantes e humildes ao ponto de, em busca do que é saudável, compreedermos que somos partes desse Planeta criado. E Responsáveis por Ele também.

  3. Joao Fernando Souza disse:

    Vc Crê Na Biblia Professor? No Cristianimo !

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